Vozes Da Distorção - Rinie
- natalia sanchez
- 6 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

O que move um artista a confrontar, a exagerar e a subverter o belo e o familiar? Em nossa amostra, não apenas exibimos obras que desafiam o olhar, mas também abrimos espaço para a "Voz da Distorção" — o quadro onde os criadores nos contam o que realmente se passa em seus ateliês.
Hoje, temos o privilégio de receber a Rinie. A artista topou compartilhar conosco suas inspirações, seus demônios criativos e o papel crucial da distorção em sua expressão. Acompanhe a seguir esta conversa imperdível!
Gostaríamos de começar do início. Nos conte, em suas palavras, como e quando você começou a desenhar ou a praticar sua arte?
Desenhar foi sempre algo que eu amei desde criança, mas com o tempo (e poda da escola e sociedade) acabei me afastando. Eu retornei a desenhar quando eu passei por um momento de crise mental e minha primeira alternativa de faculdade não foi para frente. Antes de começar a pandemia, eu fiz diversos cursos práticos de desenho e durante a pandemia comecei a cursar Artes Visuais. A partir daí, foi “só ladeira a baixo” para a minha paixão pela arte crescer.
Como você descreveria a sua obra, em geral, para alguém que nunca a viu?
Eu descreveria como um misto de linguagens em sentido de significado. Assim como eu, minha obra é ao mesmo tempo colorida e fofa, é também grotesca e violenta. Tenho uma maior preferência por representações de identidades femininas ou andróginas, sempre envoltas do contexto de queerness. Minha paleta de cores depende bastante do tipo de obra e o sentimento que eu estou tentando representar, mas é um mesclado de rosa e azul, e vermelho e preto.
Qual é o seu processo de trabalho? Você costuma começar com um esboço físico, uma ideia abstrata/conceitual, ou a escolha de um material/mídia específica é o primeiro passo?
É até engraçado responder essa pergunta, porque fez parte da minha investigação durante o meu Trabalho de Conclusão de Curso e na minha Especialização. Meu processo de trabalho sempre começa a partir de uma letra de uma música ou da sensação que ela me causa, mesmo que o resultado final não tenha nenhuma característica dela. A partir disso, eu costumo escrever frases curtas das ideias que eu vou tendo, normalmente, em inglês. Eu as escrevo em inglês porque eu prefiro que o meu processo seja mais intimista o possível, então quanto menos pessoas conseguirem ler, melhor. Depois eu começo a primeira parte dos rascunhos, o primeiro rascunho é apenas manchas para me fazerem visualizar melhor a composição dos personagens. Com essa ideia já estabelecida, eu parto para buscar referências de poses, principalmente, no Pinterest, que se parecem o máximo com a minha ideia inicial. Contudo, não é possível achar algo que se encaixe exatamente nesse pensamento, então a composição acaba se metamorfizando em uma nova coisa.
Na parte de coloração, eu costumava não planejar como as cores ficariam no final, então não havia planejamento. Contudo, conforme eu passei a migrar de arte com lineart para lineless (sem contorno), eu planejo todas as cores e a iluminação antes de começar a colorir a ilustração.
Em média, quanto tempo você dedica a uma única obra, desde a primeira ideia até a finalização?
Quando eu estava desempregada, eu dedicava pelo menos 6 horas por dia, das 16h às 21h, todos os dias da semana. Contudo, como agora eu trabalho, faço faculdade e especialização, eu estou dedicando 3 à 4 horas por dia, de segunda à sábado, exceto nas sexta-feiras e dois domingos no mês. Mas no total eu não costumo prestar tanta atenção a não ser que seja alguma encomenda para outra pessoa.
Quais artistas (históricos ou contemporâneos) influenciam seu trabalho atualmente, e você poderia nos explicar o porquê dessa conexão?
Em relação a questões de terror e grotesco com temáticas queer são: VIVINOS; Adriana Varejão; Andrew Joseph White; e Dolaana Davaà. VIVINOS é a criadora da série de animação musical Alien Stage" que traz experiências de amor e sexualidade através de elementos visuais grotescos e perturbadores.
Já Andrew Joseph White é um escritor bissexual e transsexual estadunidense conhecido pelas suas produções centradas em personagens LGBQIAP+ em universos distópicos, com sociedades rígidas e conservadoras, e protagonistas transsexuais que perpassam por uma narrativa que aborda como os papéis de gênero e identidade queer. Adriana Varejão é uma artista contemporânea que eu tive muito apreço desde a minha primeira graduação, e foi uma inspiração constante em diversas das minhas produções. As discussões sobre colonialidade através de azulejos com texturas que assemelham-se à carne são visualmente perturbadoras e causam um desconforto elegante, principalmente, em minha própria percepção sobre sua arte.
Por último, Dolaana Davaà (@dolikart no Instagram) é uma artista baseada em Milão, Itália, que apresenta suas produções, principalmente em suas redes sociais, de esculturas de máscaras de argila e cerâmica artesanais e pinturas esculpidas com aspecto de derretidas. Desenvolvendo temáticas com influências na arte de maquiagem, suas obras evocam emoções intensas e, muitas vezes, sexuais e femininas com uma atmosfera surreal.
Qual é a mensagem, a reflexão ou o sentimento mais importante que você espera que o público leve consigo ao interagir com as suas obras?
O sentimento mais importante que eu quero que o público leve consigo das minhas obras é o desconforto. Como diria Carroll (1990), com o conceito de Paradoxo de Terror, o terror é um dos mecanismos literários e fílmicos mais poderosos para, através do desconforto, deixar o espectador impactado e levar aquele sentimento para questionamentos dos paradigmas sociais. É na paixão e repulsão do grotesco que eu quero que deixe uma marca de questionamento em cada pessoa que interaja com a minha obra.
Para finalizar, em um exercício de honestidade brutal e refletindo sobre o tema, qual foi o momento que você considera o mais grotesco ou profundamente perturbador da sua vida?
Eu poderia descrever as coisas mais bizarras para chocar o público, mas tem dois momentos na minha vida que me marcam como mais perturbadores. O primeiro foi quando eu me descobri em um corpo feminino, não sei apontar em uma cena específica ou se foi um processo gradual, mas quando eu me percebi dentro de um corpo feminino e com ele toda a expectativa social e histórica. Quando o corpo de criança inocente e sem intenções construídas sobre ele se transmuta em uma massa carregada pela visceralidade da experiência feminina, não tem coisa mais grotesca do que eu poderia pensar para mim. Outro momento que me marcou bastante psicologica e fisicamente foi no período de migração do meu ensino médio para a faculdade que quando eu não passei para o curso de Psicologia, eu entrei em “parafuso” e comecei a ter crises de pânico, crises de ansiedade e crises de gastrite nervosa que para sempre me demarcaram em como eu lido com o mundo ao meu redor. Felizmente, nos dias atuais, eu tenho maior controle sobre isso, mas não gostaria de retornar para aquela época.
Encerramos aqui nossa poderosa conversa com Rinie.
Nosso muito obrigado por esta generosidade em compartilhar seu processo.
Não deixe de acompanhar o trabalho da nossa artista @rinie_uwu
Qual reflexão desta entrevista mais ressoou com você? Sua participação é essencial para a nossa curadoria!
Até a proxima " Voz " !









Comentários