Vozes Da Distorção - Possessa
- natalia sanchez
- 18 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

Nem toda arte nasce do desejo de ser vista; algumas nascem da urgência de não se perder. O que acontece quando as referências vibrantes dos desenhos animados dos anos 90 colidem com o silêncio cortante da solidão e do luto? O resultado é o trabalho de Possessa, uma artista que transita entre a doçura das formas arredondadas e a crueza de uma alma que prefere as garras às janelas. Acompanhe a seguir esta conversa imperdível!
Gostaríamos de começar do início. Nos conte, em suas palavras, como e quando você começou a desenhar ou a praticar sua arte?
Como uma boa criança dos anos 90 cresci com uma enxurrada de novos desenhos animados e a crescente invasão dos animes. Sakura Card Captor, Meninas Super Poderosas entre tantos outros enchiam a minha mente de ideias e sonhos. O hábito de copiar os desenhos veio naturalmente, utilizando os materiais disponíveis na época, geralmente uma folha de caderno e lápis. O acesso a materiais artísticos era bem escasso, o máximo que tínhamos era lápis de cor dos quais não fiz muito uso, talvez isso explique a falta de cores em minhas artes.
A arte sempre foi um hobby mantido em segundo plano, desenhos em guardanapos, folhas de caderno e notas de compras eram os mais comuns, não achava que deveria investir pois nunca achei minha arte relevante o suficiente para tal, nunca fiz curso, comprei materiais caros ou reservei tempo. Somente após a idade adulta comecei a me presentear com materiais artísticos e finalmente a compra da tão sonhada mesa digitalizadora. Somente após a idade adulta com muitas frustações, quadros depressivos, solidões e solitude que comecei a interagir com pessoas do meio artístico através de grupos de Facebook, páginas de Instagram e finalmente tomei coragem para participar de oficinas de graffiti, serigrafia e lamb. Meus olhos se abriram para um novo mundo.
Como você descreveria a sua obra, em geral, para alguém que nunca a viu?
Dúbia no mínimo. Cresci com muita solidão, repressão e incompreensão do mundo ao redor, o mundo de fantasia que manteve minha sanidade, isso é facilmente visto em artes despretensiosas, com contornos leves, arredondados, infantis e até fofos, eu brinco que a maioria das minhas artes são uma grande Hanna-Barbera, mas quando se trata de expressão o quadro muda. Quando a arte é feita com propósito e alma, as linhas suaves viram garras, as cores ficam opacas ou inexistentes. Os olhos geralmente são vazios, talvez meu medo de abrir minha janela da alma, ficar exposta e frágil me impede de desenhar olhos. Já as mãos são sempre muito expressivas, acredito que os atos podem dizer bastante sobre nós de forma mais controlada, menos exposta. É nesse conceito que sempre me baseio de forma até inconsciente para as minhas criações.
Qual é o seu processo de trabalho? Você costuma começar com um esboço físico, uma ideia abstrata/conceitual, ou a escolha de um material/mídia específica é o primeiro passo?
Como não produzo muito, geralmente as artes vem de uma necessidade, quando não consigo expressar em palavras a saída é o desenho. Para facilitar a vida de quem não tem uma grande produção de artes, manter um foco ou tema ajuda bastante a manter uma certa frequência. Quando iniciei as postagens da Possessa no Instagram foquei em
temas que me agradam e fazem parte da minha personalidade, assim poderia manter o foco. Ao colocar a mão na massa eu opto sempre pelo papel e lápis, após todo o esboço e idealização é que eu início o digital, em minha opinião o contato com o tradicional também é importante.
Em média, quanto tempo você dedica a uma única obra, desde a primeira ideia até a finalização?
Não tenho muita ideia do tempo. Ao pensar em um novo trabalho ele pode implicar em um estudo prévio, tanto de perspectiva, cores e luz, quanto sobre o assunto em si. Eu gosto sempre de conhecer mais sobre o tema antes de iniciar o desenho. Então entre a ideia e a finalização pode demorar dias, semanas etc.
Quais artistas (históricos ou contemporâneos) influenciam seu trabalho atualmente, e você poderia nos explicar o porquê dessa conexão?
Remedios Varo é uma artista incrível com uma história muito profunda, suas artes são cheias de enigmas e simbolismos e reproduzem momentos de sua vida, o que eu particularmente acho incrível. Além de artistas visuais também gosto de me inspirar em outros tipos de artes, como o cinema e a literatura, nomes como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft (com ressalvas), Guillermo Del Toro, Neil Gaiman e Mike Mignola, são alguns dos nomes que sempre me vem à cabeça ao pensar em um novo trabalho. Na era digital também há diversos artistas dos quais admiro muito e é claro os amigos pessoais que são artistas incríveis e me inspiram constantemente.
Qual é a mensagem, a reflexão ou o sentimento mais importante que você espera que o público leve consigo ao interagir com as suas obras?
Eu não espero compreensão, quando eu desenho só estou trazendo uma coleção de momentos, sentimentos e aprendizados que são só meus. Nem tudo é feito esperando algo em troca. A troca, reflexão ou sentimentos será feita de forma orgânica e única para cada pessoa. Talvez, pessoas que tenham uma história parecida possam interpretar de forma similar a minha, para outras será só linhas, cores, personagens, e por mim está tudo bem. Tudo é mutável e subjetivo.
Para finalizar, em um exercício de honestidade brutal e refletindo sobre o tema, qual foi o momento que você considera o mais grotesco ou profundamente perturbador da sua vida?
Passei por diversos momentos nos quais me vi solitária, uma solidão interna, o vazio do ser, da existência. A falta de sentido é dilaceradora, mas nada supera o luto. O luto é uma garra que te rasga por dentro, perturba, te torna outra pessoa. Após tantos anos com lutas internas, vendo cada pedacinho seu sendo devorado por pessoas que passam por sua vida, a perda através da
morte é o último pedaço seu que você vê sendo enterrado. No final de tudo, a vida é grotesca e perturbadora, temos somente momentos de felicidade e alívio para a alma.
Que encerramento potente e sincero, Possessa. Agradecemos por essa honestidade brutal, que não apenas complementa a sua arte, mas também oferece uma perspectiva profunda sobre as sombras e os silêncios que impulsionam sua criação.
É um lembrete valioso de que a arte, muitas vezes, é o único alívio possível diante do vazio da existência.
Não deixe de acompanhar o universo visual e os processos da nossa artista no Instagram: @possessa.art
Qual parte desta conversa mais ressoou com você? A nostalgia dos traços ou a crueza dos sentimentos? Sua participação é essencial para a nossa curadoria!
Até a proxima " Voz " !









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